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quarta-feira, 18 de março de 2009

Washington Post: Fed sabia, mas não avisou a Obama sobre bônus da AIG

Como diria o Chacrinha, quem não se comunica, se trumbica. A edição desta quinta-feira do Washington Post traz na página A01 matéria que mostra que, embora soubesse há meses sobre os gordos bônus a serem pagos aos executivos da seguradora AIG, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nada disse à equipe do presidente Barack Obama.

Há menos de uma semana, a AIG distribuiu $ 165 milhões em bônus a seus executivos - os mesmos que levaram a empresa à enrascada atual e que obrigou o governo a liberar três polpudos pacotes de ajuda financeira de mais de $ 170 bilhões para evitar que a seguradora decretasse falência.

De acordo com matéria do Post, não apenas o Fed, mas também o Departamento do Tesouro sabia dos pagamentos. Segundo executivos da AIG ouvidos pelo jornal, o Fed teria sido avisado há três meses de que a companhia desembolsaria os $ 165 milhões no dia 15 de março, para pagar bônus de executivos de seu departamento financeiro.

Funcionários da AIG contam ao jornal que os bônus poderiam ter sido pagos na terça-feira passada, mas a empresa estava esperando o ok do governo - leia-se Fed, que estava revisando todos os contratos - para seguir em frente, o que só aconteceu no fim da semana. Com o ok do Fed e do Departamento do Tesouro, a empresa autorizou os pagamentos na sexta-feira, dia 13. Ou seja, tudo feito nos conformes, com o aval do governo americano.

O secretário do Tesouro, Timothy Geithner (foto acima), que costurou o pacote de ajuda financeira à AIG, deu uma de joão-sem-braço ontem e disse que não tinha idéia do valor dos bônus e nem de quando seriam pagos. Tá.

Segundo ele, o Fed não foi informado dos bônus até o dia 10 de março. E, quando souberam do tamanho do rolo, acharam melhor não tocar no vespeiro: o governo não poderia mexer em contratos (os bônus eram definidos em contrato) por serviços já prestados. O presidente Obama, ao que parece, só teria ficado sabendo da dinheirama no dia 12, ou seja, na véspera do pagamento. Agora todo mundo no governo chia e se diz ultrajado com a montanha de dinheiro paga aos executivos da AIG...

Mui amigos do presidente Obama esse Fed e esse Departamento do Tesouro, hein?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Em entrevista rara, presidente do BC dos EUA diz que recessão pode terminar em 2009

Para o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano, que regula e fiscaliza a maior economia do mundo), Ben Bernanke, a recessão pode terminar ainda este ano. Já a crise econômica começará a ficar para trás no início do ano que vem. Ontem à noite, em rara entrevista (ao programa 60 Minutes, da CBS) - presidentes do BC americano não costumam dar entrevista devido ao efeito que têm sobre os mercados -, mostrou os bastidores do Fed, visitou sua cidade natal, admitiu erros, se disse indignado com a situação da seguradora AIG e descartou a hipótese de que os EUA estejam próximos de uma nova Grande Depressão.

Bernanke disse que não ter salvo o banco de investimento Lehman Brothers - que quebrou no dia seguinte à venda da Merrill Lynch (orquestrada pelo Fed, que já tinha ajudado as gigantes do mercado de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, que passaram a ser controladas pelo governo) - só não foi um erro porque o Fed não tinha alternativas nem mecanismos necessários para evitar a falência. Mas, admitiu: "Lehman provou que não se pode deixar uma gigante financeira de atuação global quebrar no meio de uma crise financeira".

No dia seguinte à quebra do Lehman Brothers, o Fed emprestou $ 85 bilhões à seguradora AIG, que já recebeu um total de $ 160 bilhões do governo, em quatro diferentes pacotes de ajuda financeira. Apesar do rolo financeiro, a AIG distribuiu $ 165 milhões em bônus a seus executivos.

Bernanke disse que, de tudo que aconteceu nos últimos 18 meses, a intervenção na AIG é o que o deixa mais irritado, pois a companhia fez uma série de apostas equivocadas mas, ao mesmo tempo, deixá-la quebrar seria permitir a quebra de todo o sistema financeiro.

"Isso me deixa possesso. Bati o telefone várias vezes quando o assunto era a AIG. Eu entendo porque os americanos estão irritados (com a ajuda do governo)", afirmou.

A entrevista já está no YouTube. Aqui você vê a primeira parte:


Bernanke, que chefiou o Departamento de Economia de Princeton - onde se especializou na Grande Depressão - disse que os EUA chegaram perto de repetir a grande crise de 29, mas conseguiram conter o incêndio por pouco. Ele diz que graves equívocos na política monetária de então ajudaram a tornar a recessão de 29 numa crise de proporção global.

Segundo Bernanke, o Fed cometeu dois grandes erros à época. O primeiro foi permitir que a queda abrupta na oferta de moeda, o que levou a uma queda nos preços e à deflação. O segundo, disse ele, foi deixar que os bancos quebrassem - um erro que o Fed quer evitar a todo custo, especialmente no que diz respeitos aos maiores bancos do país.

"(À época) não foi feito nenhum esforço real para prevenir a quebra de milhares de bancos, o que teve efeitos perversos sobre o crédito e sobre a habilidade da economia voltar aos eixos", explicou Bernanke. "Hoje evitamos esse risco (de uma nova Grande Depressão). Acredito que passamos dessa fase e agora o problema é colocar a coisa toda (a economia) para funcionar da maneira correta de novo", acrescentou.

Segunda parte da entrevista:


Segundo o presidente do Fed, todos os grandes bancos regulados hoje pela instituição estão solventes. Ele disse ainda que não deixará que eles quebrem, como no passado.

Para Bernanke, um dos primeiros sinais de recuperação da economia poderá ser visto quando um dos grandes bancos conseguir levantar dinheiro no mercado - seja com aporte de capital ou com aquisição do negócio por outra instituição.

"Agora, quem tem dinheiro para investir está de fora dizendo: 'Não sabemos o quanto estes bancos valem. Não temos certeza de que eles estão estáveis'. E, por isso, eles não investem dinheiro nos bancos", explicou Bernanke.

Ao fim da entrevista, o presidente do Fed disse ter certeza de que a economia irá se recuperar de maneira sólida e sustentada.

"Tenho confiança de que, à medida em que passamos pela crise, a economia voltará a crescer e continuará a ser a mais poderosa e dinâmica do mundo", afirmou.

Abaixo, a terceira e última parte da entrevista: